Já se disse que esse caminho de completo despojamento é o caminho estreito que somente poucos encontram. (Cf. Mt 7,14) É o caminho que conduz à alta montanha da perfeição e que só pode ser trilhado por quem estiver livre de qualquer peso que o arraste para baixo. É o caminho da cruz, para o qual o Senhor convida os seus discípulos: "Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará". (Mc 8,34)
O que se exige não é somente um certo isolamento e algum progresso numa ou noutra coisa, um pouco mais de oração e um tanto de mortificação, enquanto se conservam também certos prazeres e sensações, mesmo que espirituais. Os que com isso se contentarem recuarão "assustados como diante da morte", quando se lhes apresentar algo do que é sólido e perfeito, como a aniquilação de toda a suavidade em Deus, aridez, tédio e trabalhos penosos. É essa a pura cruz espiritual, e a nudez do espírito pobre, segundo Cristo. O resto é, "quando muito, buscar-se a si mesmo em Deus — o que é bem contrário ao amor; porque buscar-se a si em Deus é buscar os dons e deleites de Deus; mas buscar a Deus nele próprio é não só querer ver-se privado de tudo aquilo por Deus, mas inclinar-se a escolher alegremente, por Cristo, tudo quanto for mais amargo, seja em Deus, seja no mundo — este é o amor a Deus. (Subida, 1. II, c. 6) Odiar a sua vida, e por isso salvá-la, significa renunciar, por Cristo, a tudo quanto a vontade possa apetecer e saborear, escolhendo o que mais se parece com a cruz de Cristo. Beber o cálice do Senhor (Cf. Mt. 20,21) significa morrer para a natureza, quer sensível, quer espiritual. Só assim se trilha o caminho estreito, pois nele não cabe mais que a abnegação e a cruz, a qual é o corrimão para subir, que muito alivia e suaviza a caminhada. É por isso que Jesus disse: "Meu jugo é suave, e meu fardo é leve". (Mt 11,30) Este fardo é a cruz; porque se o homem se decide a sujeitar-se a carregar essa cruz, quer dizer, procura em tudo, por amor a Deus, as fadigas, e as toma sobre si alegremente, encontrará de fato grande alívio e doçura em todas as coisas e caminhará nesta completa renúncia sem desejar coisa alguma. As almas de vida espiritual deverão compreender que "esse caminho de Deus não consiste na multiplicidade de meditações ou determinados exercícios ascéticos, ou deleites e gozos.. . mas em uma só coisa necessária: saber abnegar-se seriamente, no exterior e no interior, entregando-se ao sofrimento por Cristo, e aniquilando-se em tudo. Quem praticar tudo isso encontrará tudo, e mais do que naquela forma de agir, ao passo que, havendo falha nesse exercício. . . verá que todos os demais exercícios virtuosos são como andar e não avançar, ainda que pratique meditações e comunicações tão elevadas quanto as dos anjos". O caminho é Cristo. Tudo depende de entender bem e seguir o seu exemplo:
Em primeiro lugar, é certo que ele morreu — tomado isso em sentido espiritual, morreu durante toda a sua vida para tudo aquilo que se refere aos sentidos e, tomado em sentido natural, em sua morte carnal (real) morreu para tudo. Pois, como ele mesmo disse, "... o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". (Mt 8,20)
Segundo, "é certo que à hora da morte ele esteve também completamente abandonado no íntimo da alma, sem consolo ou alívio algum, deixando-o o Pai assim, em íntima aridez da esfera sensível — motivo por que necessitou clamar, dizendo 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?' (Mt 27,46) Este foi o maior desamparo sensível que chegou a experimentar em sua vida; e assim, por meio dele, realizou a maior obra de sua vida, maior do que aquelas que havia realizado em sinais e milagres. . . reconciliou e uniu o gênero humano a Deus, pela graça. E isso aconteceu ... no ponto exato em que o Senhor esteve mais aniquilado em tudo; tanto na consideração dos homens que, vendo-o morrer na cruz, antes zombavam dele. . . como em sua natureza, onde se aniquilava morrendo; e ainda, quanto ao amparo e consolo do Pai, que nesse momento o desamparou para que por si próprio pagasse a dívida e unisse o homem a Deus..."
Tomando tudo isso em consideração, é de esperar que a alma verdadeiramente espiritual "entenda o mistério da porta estreita e do caminho de Cristo para se unir a Deus, e saiba que, quanto mais se aniquila por Deus, sensível e espiritualmente, tanto mais se une a ele e tanto maior a obra que faz. E quando vier a ficar reduzida ao nada, o que constitui a suprema humilhação, estará realizada a união espiritual entre a alma e Deus, o mais alto estado a que nesta vida se pode chegar". Essa união "não consiste, pois, em recreações, gozos e sensações espirituais, mas numa viva morte de cruz, sensível e espiritual, interior e exterior". (Subida do Monte Carmelo, 1. II, c. 7)